Viúvas de sal, de Cinthia Kriemler. Editora Patuá.
- 30 de jan. de 2024
- 2 min de leitura
Atualizado: 1 de fev. de 2024

O projeto ficcional de Cinthia Kriemler, publicado em contos, poemas e romances pela Editora Patuá convoca a corporeidade e subjetividade femininas em múltiplas angulações desde suas presenças nesse imaginário patriarcal e nesse movimento agônico de investigar, sondar, escancarar essas vidas nos franqueia acesso a mundos silenciados ou borrados pela ética do patriarcado.
Em Viúvas de sal, as vozes narrativas, que já são marcas da voltagem vertiginosa dos textos da autora se investem de uma destreza sensorial mas também de uma dicção policealesca, portam uma espécie de revolta, melancolia, dor, desejo e raiva que faz da linguagem, domínio de contágio. Explico melhor. As histórias reveladas sobre a comunidade de Porto de Xaréu, em Pernambuco, ganham a cada página uma força de transmissão ao outro, seja aos personagens enredados na trama, seja para nós, leitores. Essa disseminação revela outra marca da linguagem de Kriemler, o apelo à oralidade como recurso estético e político de convocar narradoras que se tornam próximas em suas urgências de construir e partilhar seus mundos.
Viúvas aposta nessa disseminação de mundos femininos violados por estupros, por pastores, pelo patriarcado. Aposta nas vozes de mulheres pescadoras que mesmo sabendo da impossibilidade de busca ou resgate da integralidade de si enxergam em Tonha e sua Cooperativa de pescadoras um outro lugar para buscar voz e comida.
Irenka, a narradora que se torna Augusta vive em fuga e encontra na cooperativa e em Tonha, abrigo para reavaliar sua trajetória como advogada que no passado decidiu entregar o cliente criminoso à justiça e por isso vive sob outra identidade. É pela escuta das outras mulheres que o rastro de Irenka não se apaga. Um romance sobre a força de uma comunidade de mulheres, sobre coragem mas também sobre o pranto emudecido no rosto de mulheres em sofrimento psíquico, de amigas enlutadas e que precisam seguir indo ao mar, buscar comida e algum acalanto, aqui a luz tenebrosa e bonita de Joao Galafuz.
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