Uma tristeza infinita, de Antonio Xerxenesky.
- 31 de jan. de 2024
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como se entre a dicção documental sobre as psicopatologias do pós guerras e os impactos na imagística textual do padecimento de Nicolas, personagem protagonista de Uma tristeza infinita, vingasse uma espécie de distorção da utopia pelo branco, uma falência anunciada de categorizar algo que está ali, em um vilarejo suíço dos anos 50, à deriva da representação, a melancolia. o trânsito anunciado pelo estabelecimento de Nicolas e Anna em um vilarejo suíço para que o psiquiatra trabalhe em uma nova clínica com foco em psicanálise não faz cessar o eco do passado, além dos prontuários que reportam neurose, histeria, paranoia presentificando as dores da guerra, do nazismo, Nicolas em algum momento começa a elaborar o recalque de ter vivido na Vichy colaboracionista.
o apelo ao trauma, a crença na ciência que se esmigalha diante dos diagnósticos e sintomas sem redenção, a frustração diante da inoperante desnazificação da Europa , as histórias de luto, culpa e negação dos pacientes que minam esperança, coragem fundam na ficção um escapismo de matiz alucinatória e porque não dizer, niilista?
Assim como Frankenstein de Mary Shelley aqui o branco é um signo da busca, do silêncio povoado de vertigem, Dr Victor e a criatura se diluem na floresta e no quarto palmilhados por Nicolas. Outro ponto agônico e bonito do romance é a relação conjugal entre Nicolas e Anna, jornalista científica, a ambivalência dos mundos percorridos pelo casal amplifica e muito os dilemas de Nicolas em relação à pratica clínica da psicanálise, ao empírico como construtor de sentidos. Seja na casa do casal, na clínica, nas viagens à Genebra, aos outros possíveis recantos de lazer lateja na narrativa um tempo colapsado, acossado por uma miríade de medos de Nicolas. Medos que aportam na comunidade de leitores do livro em um processo lento de assimilação, e, porque não dizer de alteridade e dor pelos corpos e subjetividades daqui também adoecidos por um governo fascista.
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