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Uma noite na praia, de Elena Ferrante. Editora Intrínseca.

  • 30 de jan. de 2024
  • 2 min de leitura

Atualizado: 31 de jan. de 2024

Em Uma noite na praia a dupla Elena Ferrante e a ilustradora Mari Cerri prolongam a duração de uma madrugada na vida de uma boneca esquecida por sua dona na areia da praia. Enquanto a personagem Lila da tetralogia napolitana experimenta o que a narradora Lenu chama de desmarginação, um estado de dissolução da subjetividade, uma espécie de resistência psíquica traduzida em uma dissociação da realidade, a boneca Celina aglutina ciúmes, desamparo, ressentimento catalisados pela chegada do gato Minu ao microcosmo sentimental de Mati. É a partir dessa intrusão que a boneca assume uma jornada melancólica e paranóica para sobreviver.


Mati emerge das reminiscências nostálgicas de sua filhinha brinquedo que fala um punhado de frases e aqui não é inanimada para dar conta do desejo mais altivo da revoltada boneca: o reencontro. A dupla que encarna e performa a espessura onírica e sombria de um pesadelo na história são o Salva-Vidas Malvado e companheiro o Grande Garfo. Minhas filhas de 4 e 2 anos tem pavor dessas figura fantasmáticas, bigoduda e rastelante.


A boneca invoca ajuda e o enredo ganha um lastro animista que entrega terror e crença na super-heroína de plástico tanto que as conversas de Celina ora com os entes esquecidos (besouro, tampinhas, garrafa) ora com a presença da natureza manifestada na fogueira ou nas ondas do mar afloram a tônica ferrantiana de distorcer o realismo em prol de uma mimese radical onde sentimentos recalculam a órbita do cotidiano para um périplo dos personagens e paisagens rumo ao extraordinário.


Em gritos e invocações vertidos em pedidos de ajuda Celina alcança a escuta mais improvável, a daquele que seria o filho mais novo de sua dona, o gatinho Minu. O resgate corrompe o pesadelo e abre lugar para o pensamento e fabulação de como serão os novos dias de Mati com seus dois companheiros de imaginações e também de realidade.


 
 
 

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