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Todos os abismos convidam para um mergulho, de Cinthia Kriemler. Editora Patuá.

  • 30 de jan. de 2024
  • 1 min de leitura

Um aparelho psíquico em vias do esmigalhamento derradeiro marca o ritmo da voz narrativa vertiginosa e cicerone de Todos os abismos convidam para um mergulho, de Cinthia Kriemler. Um projeto ficcional que se faz eterno pelos personagens fraturados e expostos, inarredáveis do nosso pensamento seja pelo impacto dos pais assombrados pelo suícidio de Laura, pelos sintomas da depressão em fluxo constante em todo o romance e por toda uma tensão negativa incrustada em uma linguagem lírica, cristalina e paradoxalmente fulminante, irônica e cômica.


Em uma torção alegórica de A Divina comédia, Beatriz aqui é a mãe, a assistente social responsável por laudos de violências domésticas sofridas por crianças e mulheres, a narradora-personagem em sofrimento psíquico que inventaria seus traumas, abusos, fugas em uma performance de elipses. A terapia como signo de saúde e reelaboração de mundos.

O périplo de Beatriz é remitificado e não há uma claridade absurda que ilumina sua presença nesse cálculo enlutado de intersubjetividade colapsada nesse corpo de mulher, mãe, servidora pública que se fragmenta em escapismos violentos.


Um romance que dá conta de representações múltiplas do familismo histórico brasileiro acossado pelo patriarcado e pela desigualdade social. Uma classe média e suas faturas de crises, de transtornos e doenças também emergem em densidade e variações de ângulos tornando Todos os abismos convidam para um mergulho uma espécie de binóculo que insiste em redimensionar e focalizar os impactos do patriarcado e da depressão no micro e macrocosmo brasileiros com uma sensibilidade memorável.


 
 
 

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