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Terra fresca em sua tumba. Editora Incompleta e Jandaíra.

  • 30 de jan. de 2024
  • 2 min de leitura



Em Terra fresca em sua tumba há um deslocamento do conceito de natureza como algo plasmado advindo do sagrado ou como contraponto ao humano. A natureza aqui capitaliza e dissemina toda a sorte de pulsões libidinais que constituem o sujeito, a terra mas do que ente figurativo assume uma matriz de simbolizações metafísicas e de conversões anímicas.


Essas ficções de Rivero movem o horror para o gótico e nesse adensamento de gêneros se forja um imaginário refratário à condescendência como mote narratológico aos personagens em ascendente sofrimento psíquico.

O que resta aos personagens de Rivero? O extremo dos dias, um punhado de escutas em locações de um regional que soa universal e uma pátina de sobriedade para encobrir solidão e desatar um insólito às voltas com o recalque, o ressentimento e as marcas do patriarcado que ali se aderem no território que por mais local e íntimo ainda ressoa como estrangeiro. A Bolívia é o epicentro das narrativas mas há na sedimentação dos espaços um esgarçamento da noção de pátria que transtorna quaisquer acepções romantizadas. O senso de pertencimento das personagens resvala diante de violências, de mistérios e das memorabílias.


Às mulheres das narrativas é entregue um protagonismo material por mais que ele venha enredado de lutos e silêncios é pela corporeidade dessas mulheres que se estabelece uma proximidade radical com suas subjetividades.Com Keiko, personagem do conto "Quando chove parece humano" é diante de uma genealogia de dicção sucinta que sabemos de seu passado em uma colônia japonesa na Bolívia e pelos seus rastros como professora de origami em uma prisão se chega ao seu lar, ao jardim que revolve a terra como suturasse chagas de um enfermo passado com sua hóspede Ema. A maternidade também aparece em "Peixe, tartaruga, urubu" e a elaboração da perda do filho em um naufrágio indicia o suspense e ânsia pela catarse que atravessa todo o livro. O estupro de Elise, a saúde mental de Socorro, a fé de Nadine figuram como acontecimentos fulminantes que além de exporem os reveses do patriarcado parecem também orquestrar uma espécie de ética feminista com vistas à não pacificação e esquecimento dos conflitos.


 
 
 

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