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Temporada de furacões, de Fernanda Melchor. Editora Mundaréu.

  • 31 de jan. de 2024
  • 2 min de leitura

Glossar a aberração de um território insolado por superstições. O cisma de um enredo advindo do assassinato de um filho travesti de uma bruxa icônica da cidade, filho que herda o nome Bruxa e ofício de invocar pelo submundo, encarnados nos jovens drogados frequentadores da casa maldita, o alimento daquela alma para os serviços e incumbências mágicas. Um romance como dádiva: beleza, choque e mimese que expurga realidade.


Como se fosse um romance policial ou um filme contemporâneo sobre algum município-sol-à-pino-do-velho-oeste, Temporada de furacões entrega um material ficcional que por mais que incida em mundos referenciais estilhaça a noção de uma literatura empenhada de lastro sociológico. Há elementos de denúncia da misoginia como no romance Garotas mortas de Selva Almada ou do precariado e de um Estado em constante falibilidade com os cidadãos na produção de Ana Paula Maia, mas as escolhas de Melchor pela elaboração do mal estar na barbárie irradiam pelo eco infinito do escarner e da danação dessas vidas. Famílias em suas bizarrias que vão de temas como traição conjugal, exílio pela prostituição, vício em pornografia, pedofilia, zoofilia tudo isso plasmado em um microcosmo de terror, de apelo às bênçãos e às bruxarias. Não há apelo à reparação ou tentativa de que o texto preencha o pranto e o vazio deixados pela violência. Violência como um dilema indivisível pq está entranhado em todos sem o dom ou a ânsia da recusa.


O rastilho que fica da leitura do romance de Fernanda Melchor é um legado de espanto e contemplação diante da miscelânea de uma estilística barroca - que aposta em uma dicção vertiginosa para nos ambientar ao imaginário de violações, à arquitetura de assombros das casas, ruelas - com a destreza descomunal em um inventário de terror e distúrbios de personagens que habitam esse epicentro do mal chamado La Matosa. Não há ali lugar para o escapismo romântico ainda que essa ficcional currutela mexicana fustigue ânimos e contemple natureza e morte como signos de uma civilização última.


 
 
 

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