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Suíte Tóquio, de Giovana Madalosso. Editora Todavia.

  • 31 de jan. de 2024
  • 2 min de leitura

Atualizado: 1 de fev. de 2024

Um clímax (babá sequestra criança) convoca um tempo presente de terror e outro de passados bricolados que dão uma dimensão senão sociológica, um semblante repleto de sintomas dos abismos sociais que refundam o Brasil escravagista em suas dinâmicas do trabalho doméstico. Uma alegoria espacial do arcaico e também do contemporâneo microcosmo da conjugalidade e parentalidade da classe média e elite brasileira: o quarto de empregada.


Suíte tóquio é o codinome estilizado que Fernanda, produtora de tv, e mãe de Cora, dá ao quarto reformado como índice de barganha e assédio moleculares para que Maju passe a dormir em seu apartamento luxuoso e dispensar ternura e cuidados à filha Cora. No arco espesso de acontecimentos irradiadores de paixões e de rupturas temos de caso extraconjugal de Fernanda com a cineasta Yara, ao alheamento melancólico do marido Cacá, passando pelo pacto d união de Maju com Lauro que é quebrado, restando ao casal periférico visitas nupciais quinzenais que estilhaçam a comunhão centrada na promessa de presença de voz, corpo, comidas, músicas feitas e entoadas pelo par.


A sintaxe do desamparo compõe um clamor egoíco reverberado tanto na voz narrativa da Mãe quanto da babá, as duas mulheres parecem persistir em uma experiência de ilusão ou até mesmo de delírio desde que o recanto final seja uma fuga da realidade.


Não há rendição para essas duas mulheres nessa ilusão de outras vidas performadas ora pelo apelo ao erótico ora à nomeação do cuidado e do pertencimento e é por isso que seguem obstinadas em uma espécie de trincheira encantatória, lutando por uma dissipação dos sentidos que as encerram nos determinismos do patriarcado seja o casamento falido, a solidão da mulher sem filhos e abandonada.


O projeto estético do romance consegue um feito discursivo e imagético de suprimir a desumanização da personagem pobre (Maju é interessante, ambivalente. complexa) ao lidar com perspectivas múltiplas dessa mulher às voltas com seu projeto migratório de estabelecer sentidos, conquistas, amizades e que em um momento de vulnerabilidade se vê acossada por uma clausura assinada pela patroa.

A disseminação metafórica é outro trunfo da ficção de Madalosso,


 
 
 

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