Sistema nervoso, Lina Meruane. Editora Todavia.
- 31 de jan. de 2024
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A ficção de Lina Meruane investe em um dispêndio estilístico: obsessão e linguagem poética como tração de suas histórias sobre corpos, cidades, família e suas intimidades.
Enquanto o material que desorbita (aquele que excede o pacto narrativo de compor o arco de uma personagem escritora e imigrante às voltas com a escrita da tese) em Sangue no olho (publicado aqui em 2015 pela Cosac e Naify) é a identidade da narradora, acadêmica e romancista, posta em suspensão por uma cegueira desatadora de tensões espaciais e existenciais em Sistema nervoso, as disputas narrativas do microcosmo familiar forjam um emaranhado de dores e de enfermidades em um périplo de resgate e confronto com diferentes temporalidades históricas e sentimentais.
Nesse arranjo anacrônico de testemunhos e traumas absorvidos por corpos em constante escrutínio mnemônico e médico: lapsos, digressões, laudos, repouso e observação parecem ensaiar hipóteses ao objeto de pesquisa de doutorado da personagem central, àquela que transita entre o país do passado (Chile) e o país do presente (Estados Unidos). É pelo rastro metafórico dessa pesquisa sobre os buracos negros e o espaço sideral que as aporias se acumulam, que as doenças indiciam recomeços.
Um livro sobre cosmogonias. Sobre estilhaços, cicatrizes, pertencimento, ainda que o custo das elaborações dessas experiências sejam ligações eternas e irreversíveis com a orfandade, o desamparo, a pátria.
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