República luminosa, de Andrés Barba. Todavia.
- 31 de jan. de 2024
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a infância em uma mirada de terror e fascínio construída em uma espécie de realismo decantado ao máximo com vestígios das presenças materiais e fantasmáticas das crianças que aparecem em San Cristóbal escancarando para nós uma geografia agônica da cidade acossada por um selva quase mítica e um rio aglutinador de histórias ancestrais. não há espaço para a idealização do universo infantil e essas crianças submergem ao esgoto da cidade para implodir quaisquer noção ou intuição de pacto civilizatório performado pelo mundo dos adultos.
no mesmo rastro de romances como História do olho, de George Bataille; Jardim de Cimento, de Ian McEwan; As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez; ou o recente Os tais caquinhos de Natercia Pontes, Républica luminosa rasura o olhar hegemônico dos adultos às crianças implementando uma visada que pode até parecer mágica, uma lógica narrativa que explora o irracional, o senso de comunidade, o interdito que aciona, move e sustenta a estrutura do mundo nada ordinário infantil.
Com repertório de gangue urbana (assinatura de uma gramática visual iconoclasta) e liturgia de seita herética (idioma críptico, reuniões no breu da selva) as crianças e adolescentes caotizam a cidade com saques aos supermercados, contatos nonsense com os cidadãos e talvez o mais inquietante aos adultos: a atração hipnótica exercida aos seus filhos. estopim para uma cruzada de vários rostos dessa cidade à selva, ao subterrâneo do seus medos.
o romance de Barbas investe em uma geometria ficcional absurda; testemunhas que divergem sobre o massacre ocorrido com as 32 crianças, peças discurvivas que apontam para o acontecimento como uma lupa e desorbitam ainda mais o imaginário que se forja ano após ano sobre o evento que não opera como catarse já que são anunciadas as mortes desde a abertura da história.
Diante dessa infinidade de ângulos que vai do registro documental, aos diários de uma adolescente que cataloga as peripécias da gangue em um registro polifônico revelando o desejo de pertencimento das crianças da comunidade ao outro mundo fantástico, à testemunha quase inconfessa que revisita sua participação no grupo excêntrico, ao narrador que coleta também em sua memorabilia como funcionário da prefeitura e morador dessa cidade do interior sua incursão ao território de pedra e selva. É também por esse narrador que emana culpa e um rastilho de nostalgia que catalisa todo esse relembramento que escapa ao estatus de etnografia ou coisa que o valha, ainda que retorne em alguns momentos seu olhar e afã pedagógico ao caso das crianças que se dá um profundo acesso cartográfico ao microcosmo das crianças e adolescentes. Nesse amálgama de histórias de confissão, de terror e policial: as pistas, os vestígios, os entreatos elaboram representações não institucionalizadas dessas crianças o que torna o romance espetacular.
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