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Páradais, de Fernanda Melchor. Editora Mundaréu.

  • 31 de jan. de 2024
  • 2 min de leitura

Atualizado: 1 de fev. de 2024

Temporada de furacões como um romance que glosa aberrações de um território insolado por superstições invoca pelo submundos de La Matosa seu material ficcional. A violência emerge lá como um dilema indivisível pq está entranhado em todos, sem o dom ou a ânsia da recusa. Em Páradais a linguagem experimenta uma despressurização (ritmo vertiginoso e barroco se mantém mas há algo que se amaina, sobretudo no quesito representacional) em relação ao Temporada, a mimese aqui não indicia o convulsionamento de realidade que havia naquele beirando o que chamei de mimese como expurgo da realidade. O projeto estético de Fernanda Melchor em Paradais se concentra nos impactos de como o combo patriarcado e desigualdade social forjam uma espécie de oferta em larga escala de violência e de um mal-estar fundante de sujeitos tensionados por uma exaustão atávica e por um recalque histórico, já que ambos encontram suas genealogias no imaginário político desses corpos assombrados pelo trabalho, pelo medo e pelo gozo.


A precariedade no mundo de trabalho (tanto dos terceirizados em uma empresa de serviços gerais quanto dos trabalhadores cooptados pelo narcotráfico) e a justaposição de códigos de segurança e de requinte presentes em um condomínio fechado de luxo na costa mexicana chamado Paradise nos direcionam para uma captação vertiginosa do real, que ao tentar se conformar em alguma medida a seus referentes exteriores entrega desconforto, raiva e nojo encarnados em totens naturalistas desse real em quase barbárie: os adolescentes Polo e Franco, o Gordo.


A linguagem também carrega seus efeitos e apelos de texto policialesco ainda que vertidos em uma perspectiva quase surrealista. É forjado no romance um pacto virtual com o leitor que se assegura em um limbo panóptico: a ilusão da recepção e docontrole do material ficcional representado tem um custo de diuturna vigilância e de custódia de todos os acontecimentos.


Os investimentos libidinais dos personagens de Paradais mais especificamente de Polo e Gordo escancaram a ética da pornografia que atravessa do paisagismo e da arquitetura das casas à subjetividade dos sujeitos às voltas com um determinismo


 
 
 

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