VALE O QUE TÁ ESCRITO, de Dan. Editora DBA
- 30 de jan. de 2024
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VALE O QUE TÁ ESCRITO, de Dan, é um romance que reconvoca a sintaxe sentimental e topográfica da nápoles ferrantiana e se inscreve na dicção vertiginosa presente em certa literatura latino-americana contemporânea como a de Melchor e Navarro às voltas com o esmiuçamento de sintomas sociais para recontar a vida urbana e o lastro de seus sofrimentos psíquicos. Diante dessa herança e pertencimento o romance forja uma imagística noir sobre a construção de Brasília e uma das cidades primordiais de sua cosmogonia, o Núcleo Bandeirante.
O olhar contemporâneo de um narrador carismático e metido em um arranjo de linguagem metaficcional, o espirituoso e fatalista barista Danylton, nos entrega entre a pulsão por se tornar um escritor e a urgência de lidar com as fraturas de uma memorabília da adolescência, uma ética nostálgica e detetivesca que o investe de uma sensibilidade radical para acessar, revelar e colocar em cena personagens tão estranhos, grotescos e queridos como Lilico, Gilson, Valdemar, Boa Morte, Mano Bola, Sara, Cleyton Juliane e o próprio Dany.
Um sopranos do cerrado que vai além da estética da máfia e da convivência acossada pelas delações porque inverte e subverte a noção de gangue de amigos enfatizando a força e ânimo amoroso dos anti-heróis adolescentes, viciados em video-game e fãs de um baseado e ainda deflagra a onipresença miliciana na fisionomia imobiliária e do comércio do Núcleo Bandeirante
Os giros de enredo revelados pela engenhosidade textual que cobrem uma temporalidade extensa atravessada por escola, diário, mtv, crimes, paixões, morte, amizades, fofocas, fugas, lutos e mistérios forjam um fôlego desvairado para o romance que parece alcançar aquilo que o Bataille falava sobre a literatura de ser inorgânica e poder dizer tudo, aqui até fazer a leitora paranoica desejar ser amiga de uma hipotética parricida.
Um narrador que retroalimenta a trama detetivesca às custas da falência do seu café e de seu casamento e nos hipnotiza e salva nesse jogo narrativo marcado pelo arco de crianças que se tornam jovens e depois adultas como fez Ferrante aos nos colocar na eterna espreita de Dom Achille, Lenu, Lila, Nino, Pinuccia, Stephano Michele, Enzo...
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