Priscilla, de Sofia Coppola.
- 30 de jan. de 2024
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Atualizado: 1 de fev. de 2024

Priscilla é um filme minimalista e mítico sobre um movimento de despossessão de si (catalisado pela figura amorosa e intimidadora de Elvis, interpretado por Jacob Elordi) e de um arco lírico, cheio de silêncios, de emancipação feminina. Uma adolescência em conversão alucinante para a vida adulta e um custo psíquico de uma vida tragada pelas leis do show business, pelas violações incalculáveis de um relacionamento amoroso tóxico.
Um filme de Sofia Coppola. Uma assinatura que sempre dissemina o avesso dos pactos domésticos e a luta melancólica de mulheres introspectivas aos passos sedutores e ludibriantes do patriarcado. Um filme que a partir de um livro de memórias da própria Priscilla, Elvis e Eu (1985), retraça em uma linguagem sensorial (cores, sons e texturas como signos da violência, dos humores, êxtase e quedas da personagem central) a genealogia desse encontro fascinante e violento.
Priscilla que ganha voz, subjetividade e corpo pela atriz Cailee Spaeny, é a adolescente de 14 anos que mora com os pais em uma base militar americana na Alemanha Ocidental, e Elvis, o soldado e já cantor famoso de 24 anos que está a serviço de exército americano. Do encontro dos dois à partida de Priscilla com seu novo amor para os domínios solitários de Graceland, um purgatório glamouroso comandado mesmo à distância por Elvis que não permitia que a garota ainda no ensino médio se socializasse. Roupas, cabelos e olhos também eram decididos pelos gestos dominadores do roqueiro esteta, do boy tóxico.
Priscilla é acossada por frentes de autoristarismo, pela adição de Elvis em remédios e pelo excesso de zelo em um enlace visual marcado por mobílias, tecidos, luzes e uma tensão agônica construída entre closes e registros de sorrisos e solidão nos rostos dos dois personagens mas em uma imersão detalhada na sintaxe dos gestos, olhares e do mundo anímico e sentimental da esposa que se torna mãe.
Assistimos a fratura e o craquelar de um utópico e respeitoso casamento (presuspostos retroalimentados em verborragia por Elvis) e a conversão das experiências de carinho e zelo rasuradas pela tônica do abandono e dos gestos rudes do astro em uma vida sombria onde onde os riscos e os danos deixam de valer a pena. E quando valem? Priscilla decide bater em retirada e esse movimente ainda que dure poucos segundos ou minutos se investe da força motriz dos filmes de Coppola, uma espécie de pacto diante de um si arruinado que reencontra dentro do universo em escombros, uma faísca de luminosidade.
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