Pequena coreografia do adeus, de Aline Bei. Companhia das Letras.
- 30 de jan. de 2024
- 2 min de leitura
Atualizado: 31 de jan. de 2024
Pequena coreografia do adeus aporta em uma espécie de rastilho tipográfico e fenomenológico já conquistado em O peso do pássaro morto. Esse rastro estilístico, agora marca ainda mais espessa, como assinatura de Aline Bei forja um texto com dicção confessional e toda uma imagística gráfica como composição de imaginário, de personagens e de temporalidade.
A voz narrativa de Pequena coreografia nos chega em cochichos e burburinhos de segredos advindos dos fluxos intermitentes da escrita de um diário pela narradora personagem, Julia Terra. Um diário como testamento de uma vida, um diário q comporta as modulações de vozes de uma Julia criança diante do divórcio dos pais, de uma Julia adolescente abrigada em seus traumas, herança de uma parentalidade violenta de chineladas na boca protagonizadas pela mãe e de sumiços convertidos em abandonos pelo pai. Essa voz que escapa aos adultos se confina na linguagem para q ruídos, medos e pulsões de morte e de vida performem uma dança anacrônica de libertação e rasura dessa identidade de filha.
O contraponto ao abandono parental ganha na narrativa um peso alegórico de dimensões bourgeoisianas, o lar-pensão não só é influxo de hospitalidade como catalisa um rasgo nos dias acabrunhados de culpa e de melancolia pela saída da casa da mãe e pela nostalgia do pai ausente, só que agora morto. Esse rasgo é paradoxal pq instaura uma sutura venturosa: a dona da pensão, a Argentina, assume o papel quase missionário das fadas de contos infantis em suscitar conselhos parabólicos inspirados em seu périplo para dar impulso ao resgate de vida por Julia.
Assim como em O peso do pássaro morto a condição de se nascer mulher em Pequena coreografia ganha relevância política e poética ao redimensionar para uma linguagem híbrida de monólogos, de excertos de prosa, de signos gráficos como imagens acústicas de dor, alívio e gozo, o custo psíquico de espancamentos, de abandono parental em um arco narrativo que mobiliza um corpo e sua subjetivade ao destino mais cruel e impactante do livro: o de figura cuidadora. Me resta como leitora imaginar outros rasgos à realidade de Julia ainda que venha pelo ofício perseguido desde pequena, o de escritora.
Comentários