Parque industrial, de Patrícia Galvão. Companhias das Letras.
- 30 de jan. de 2024
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Para se chegar de fato ao romance Parque industrial é preciso atravessar uma espessa camada de fumaça historiográfica que o separa dos leitores. Não falo da tessitura fisiológica de São Paulo e suas mazelas advindas da industrialização, falo dos rótulos de panfleto político que o coloca nas prateleiras de literatura engajada deixando escapar suas contemporâneas problematizações político-subjetivas.
A dimensão trágica do último capítulo de Parque industrial, chamado RESERVA INDUSTRIAL, não encobre a tópica da filiação política, um dos eixos estruturadores da narrativa, mas faz emergir rastros de sentido que se não revelam algo da impotência da fé comunista, exploram a desilusão e a angústia advindas de uma sociedade em fundação e constante atração pelos domínios patriarcais e capitalistas. Esse mundo acossado pela catástrofe estaria mais do que entrevisto, personificado nos meandros da personagem Corina:
"Nunca mais trabalhara. Quando tem fome abre as pernas para os machos. Saíra da cadeia. Quisera fazer vida nova. Procurara um emprego de criada no Diário Popular. Está pronta a fazer qualquer serviço por qualquer preço. Fora sempre repelida.
Entregara-se de novo."
Nas impressões daquela cidade agitada, surgem representações em que o aspecto movimentado, cheio de vigor e de batalhas se esvai gradativamente, e a cor cinza de São Paulo intumesce ainda mais o centro urbano só que agora da fome e frio dos pobres. A imagística de São Paulo em Parque industrial forja uma iconografia ambivalente que entrecruza opressão, resistência, afetos, ressaltando a corporeidade e as tramas subjetivas de uma cidade moderna.
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