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Pança de burro, de Andrea Abreu. Companhia das Letras.

  • 30 de jan. de 2024
  • 2 min de leitura

Atualizado: 1 de fev. de 2024


Duas amigas pré-adolescentes são as protagonistas desse romance que se move pela força erótica e irreverente das personagens Isora e a narradora não nominada mas que Isora chama amorosamente de Shit. Outra força motriz do romance que conta com a tradução, de Livia Deorsola, super delicada e atenta aos ritmos, dialeto e marcas da oralidade da adolescência é a dicção impetuosa e lírica advinda de uma engenhosidade estilística de Andrea Abreu que faz reverberar por toda a ilha e ainda aqui, longe de lá, uma linguagem poética, incansável e eletrizada dessas garotas de 10 anos que brincam de barbis, se masturbam, assistem pokemons e novelas, descobrem o méssinger pelo programa do governo de levar computadores e internet para os institutos sociais e sonham em serem habitués da orla marítima, tão próxima e paradoxalmente tão impossível à essas moradoras do bairro periférico da região norte das Ilhas Canárias

A geografia é outro ente precioso que forja o romance de Abreu e q deflagra a assimetria entre região turística reluzente e marítima e o bairro pobre e periférico habitado, em grande parte, pelo proletariado que presta serviço para a região central de prestígio e poder financeiro. Essa é a realidade dos pais da narradora que passa a maior parte do tempo com a avó e a amiga Iso, orfã de mãe e que vive com a avó Chella, dona de uma mercadinho, e a tia Chuchi

Seja pelo vulcão da ilha q vive na iminência da erupção ou pelo fenômeno meteorológico chamado Pança de burro que torna o ar uma espécie de filtro com nuvens pesadas e baixas formando uma camada cinzenta, a textura sensorial das angústias, dos medos e até da pequena gramática de transgressões está sempre às voltas com esse mundo borrado onde o mar figura como farol sobretudo para Iso, acossada pela avó gordofóbica, e em um trabalho de luto silencioso pelo suícidio da mãe e abandono do pai

O romance explora ansiedade, melancolia e os desejos de crianças que experimentam uma transição para a adolescência sem quaisquer amparo de uma parentalidade atenta e afetiva. E é nesse vaivém de sentimentos e de rotas repetitivas e desgastadas: escola, casa, mercadinho, andanças pelo bairro acontece esse mundo de luto e amizade


 
 
 

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