top of page

Os tais caquinhos, de Natércia Pontes. Editora Companhia das Letras.

  • 31 de jan. de 2024
  • 1 min de leitura



Natércia Pontes em seu Os tais caquinhos cria uma espécie de taxidermia narrativa, um inventário molecular da casa da adolescência que transtorna a indiciada representação naturalista pela ênfase em um lirismo de matiz expressionista ainda que cômico. Desse inventário molecular desatador de imagens de entes inorgânicos e orgânicos (pilhas de papeis, copos sujos, cupins, lagartixas, patas serrilhadas de baratas, baratas em tráfego incessante) do ensebado apartamento que a narradora Abigail vive com a irmã Berta e o pai Lúcio derivam corpos e seus excessos de tralhas, queixas, dores, fantasias e nostalgia.

É pelo excesso, pelo resto e pela ausência que o território minado da adolescência se fossiliza diante dos nossos olhos, tudo está lá - empoeirado, sujo, coberto de lixo, atravessado por camadas de entulhos - e a parte que falta encerrada na figura da mãe e das duas irmãs menores revela uma cosmogonia familiar estilhaçada. Todo e qualquer pedaço desses caquinhos arriscam uma rota excêntrica e belíssima, uma saga de queixas, de fugas, de sonhos sem cicerones, cantos de sereias ensimesmados em um mundo que se reergue primeiro pelo atrito, e, depois, pela quebra anunciada da simbiose que é a adolescência.


 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Trilogia, de Ariana Harwicz.

Uma trilogia barroca: estilística absurdamente onírica, tabus desrecalcados, vidas catastrofizadas. a radicalidade do trem todo tá além...

 
 
 

Comentários


bottom of page