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Os coadjuvantes, de Clara Drummond. Companhia das Letras.

  • 31 de jan. de 2024
  • 2 min de leitura

Na superfície, Os coadjuvantes, soa como um amontoado de confissões sem lastro de complexidade, o que se verifica na voz da narradora de classe média alta empenhada em manejar cinismo e sarcasmo ao apresentar o imaginário, as personagens que compõem a aura elitista e, sem carisma do mundo dos ricos.


Sem nenhuma pretensão emancipatória de consciência de classe a narrativa só aposta nos contrastes dos personagens e no adensamento estilístico à medida que a narradora vai dando materialidade discursiva aos custos psíquicos de uma vida senão engessada, performada ao coro de um nauseabundo e aristocrático familismo. Esse material discursivo exposto deflagra além dos sintomas de narcisismo de toda uma classe, também os impactos da depressão e de outros sofrimentos psíquicos na infância, adolescência e vida adulta de Vivian.


Como se fosse uma fotomontagem melancólica e delirante, talvez, por isso cômica, de uma geração obcecada com a distinção, forjada pelas exposições, festas, viagens, as conquistas de Vivian pervivem em constante rearranjo e manutenção de status quo e, se distanciam da linguagem de distinção que pertence aos seus pais. Para esses, o binômio dinheiro e poder tem sua genealogia no capital financeiro de empresas privadas, daí no ruidoso mundo doméstico submergirem sempre como bajuladores ou paranoicos com códigos obsoletos de etiquetas


O furo nessa bolha personificada por privilégios e angústias implica na promessa de uma outra atmosfera ao microcosmo de Vivian. É pela notícia da morte de Darlene, a vendedora de cervejas que tinha um ponto no calçadão em frente ao prédio da narradora que o pacto fantasmático de alteridade é esmigalhado. Aos menores indícios de culpa, pesar por não ter oferecido ajuda em uma festa que avistara Darlene como ambulante, possivelmente antes de sua morte, a personagem recua e a indiferença torna a modelar o seu diorama intimo.


Ainda que a lucidez da narradora drible o esquematismo de representação do mundo do precariado ou mesmo estabeleça pontos de fuga da monolítica elite, os personagens seguem padecendo, propositadamente ou não de uma falta de espessura da experiência de dor a que são lançados no início do romance


 
 
 

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