Os cincos diabos, de Léa Mysius, no @mubibrasil
- 30 de jan. de 2024
- 2 min de leitura

A perspectiva de uma criança como narradora e força motriz de uma linguagem espiralada e sensorial devastando passado, presente, caotizando a previsibilidade de futuro. A subjetividade em turbilhões alegóricos de Vicky e seu olfato superpoderoso, seus potes de cheiros como poções colapsando o tempo real de vidas interditadas pela violência da lesbofobia.
Reminiscência, fantasia e paisagens dos alpes franceses como recursos de uma obra agônica e sensível. O mundo da violência e do desamparo sob o olhar mágico e em vertigem de uma criança.
Uma obra-prima de Léa Mysius.
Obrigada @gabilafe pela indicação e presença em minha vida de leitora.
Em Pessoas desaparecidas, lugares desabitados de Alexandre Arbex, paisagens e intimidades excêntricas forjam um mundo babélico e sedutor que nos perturba pelas aparições de homens, mulheres, e adolescentes movidos a contrapelo da história em seus dramas, disputas de poder e ensimesmamentos crípticos.
Em uma cadência lírica de resgate, bricolagem e transubstanciação de mitos que faz coro ao projeto poético de Anne Carson, o livro de Arbex investe em personagens sisudos de nomes antiquados como Julita Dores Otília, Bernardo Romeu, Egídio Prudêncio, Hermes Quebaldo, Oleana Ritcher entre outros que se eletrizam desde redemoinhos que se formam em um comezinho de verniz ordinário mas de ossatura insólita para comporem um arco existencial quase sempre iconoclasta.
O que parece nos primeiros contos um exímio domínio de aproximar filosofia, antropologia de eventos insólitos da geografia e da biologia vai ganhando um adensamento de gêneros que culmina entre a quebra de expectativas e a dicção ensaísta em um rompimento com qualquer tipo de fé nos pactos com o outro.
O contratempo rege o ânimo das sociedades arcaicas e contemporâneas, das vidas quase anônimas de personas barrocas rendidas ao texto que se faz poema em uma linguagem mítica de hipnose e espasmos.
Destaque para o conto A solidão equestre de Alceno Estevinho Marchador, pelo jogo libidinal que a presença desse ser de aparência rara e brutal invoca, pelo requinte dos ângulos (marca da assinatura de Arbex) que refaz nosso acesso de leitura encarnado de agitação e hospitalidade.
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