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O som do rugido da onça, de Micheliny Verunschk. Companhia das Letras

  • 31 de jan. de 2024
  • 2 min de leitura

Micheliny Verunschk corrompe o decalque positivista dos registros naturalistas de Martius e Spix, reconhecidos pela famosa expedição austríaca oitocentista de matiz botânica, ao fazer irromper vozes, olhares e corpos adoecidos das crianças indígenas sequestradas e traficadas para a Baviera. Um romance histórico que deforma o gênero ao catalisar e embolar temporalidades de Brasis violados: seja o colonial ou o bolsonarista. Brasil que se enverga ficcionalmente sob os urros e a vigilância, em rastilho, de uma linguagem barroca às voltas com um futuro combativo e um passado desconcertado.


O ponto de partida para essa rasura em radiância de fabulação é a representação em litografia de Iñe-e observada pela personagem Josefa, uma paraense agora moradora de São Paulo em uma exposição financiada por um banco.


Ali em uma contemplação da viagem de terror imposta às duas crianças, as vozes narrativas encampam uma dicção de transluciferação dos acontecimentos, uma tradução lírica, arisca e inventiva que possibilite uma reassunção dos corpos mas sobretudo da memória de Iñe e Juri .


O som do rugido da onça mira em outras mímeses, e é também pela diferença dos significantes em suas materialidades que disseminam sentidos encavucados que uma outra escritura do Brasil ganha morada no texto ficcional de Verunschk. Memórias que se relançam em uma revinda de recomeços e arremessos e encarnam desencantamentos e demandas que não se encerram na palavra justiça.


A viagem é mais longa, o desejo tanto da personagem Josefa quanto das crianças, dos animais e dos rios - que aqui são entes de voz, sentimentos e emprestam uma espécie de pensamento mágico que se verte em cosmogonias e descomeços - é pela sobrevivência do som, pela irrupção da voz, do rugido que aporta implodindo quaisquer leituras ou pactos de reconciliação seja no tempo do agora ou nos anteontens coloniais.


 
 
 

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