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O peso do pássaro morto, de Aline Bei. Editora Nós.

  • 31 de jan. de 2024
  • 2 min de leitura

A quebra do verso como variante estilística de um romance, uma etnografia íntima de uma voz feminina que se narra sem trégua durante quase todo O peso do pássaro morto, um arco temporal como périplo sem retorno dos 8 ao 52 anos de idade.


A dicção dessa voz é um feito de camadas rítmicas e imagéticas devotas de uma urgência metafísica tão cara ao universo das crianças. A morte da amiga Carla apresentada sem porquês pela escola e pela família da narradora forjam uma incursão progressiva desta às perdas e ausências. A jornada de espanto da narradora diante das perdas, ainda criança, ganha tração em suas visitas ao vizinho benzedor, seu Luis, que assume uma espécie de aura de oráculo decodificador do real. Chega por ele a verdade, Carla foi morta por um cachorro bravo.


O peso do pássaro morto coloca também em cena agônica a perspectiva da adolescente que é estuprada pelo ficante e se torna a mãe colecionadora de abismos e vazios nessa relação onde cabe ao pai apenas o lugar de extravio. O acúmulo de melancolia e apatia que se instala entre mãe e filho é rastilho para o cisma materializado na ida do filho para estudar em uma cidade universitária de Minas Gerais. É também pelo vácuo do filho que o cachorro Vento assume um protagonismo na vida da personagem. Seu corpo de cão colado no asfalto de morte e seu rabo com gota de fôlego mesclados ao grito da narradora é um dos registros mais tristes que li nos últimos tempos.


A promessa de tempo futuro parece sempre violada e as cicatrizes latejam em um corpo de restos e perdas. Vento parecia suspender o niilismo dos dias e sua morte dissemina nostalgia e um lirismo escatológico em corpo, casa, quintal. À deriva dos pactos íntimos que deveriam reger um corpo enfermo de solidão nossa personagem morre em sobressaltos de sonhos, em rasura de companhias, de pedido de socorro.


 
 
 

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