top of page

O pato, a morte e a tulipa, de Wolf Erlbruck. Companhia das Letrinhas.

  • 30 de jan. de 2024
  • 2 min de leitura

Atualizado: 31 de jan. de 2024




Minha primeira experiência com a chegada da morte foi o velório doméstico de minha bisavó paterna. eu tinha 6 e minha mãe não pode ir conosco. Fomos eu, minha irmã, três anos mais nova e meu pai, o neto ateu. A morte pranteada ali me surpreendeu pela reza mas sobretudo pelas flores e pelos algodões nas narinas daquela bisavó franzina de semblante passarinhístico. duas cenas daquela tarde em patos de minas ainda me habitam: as crianças todas dentro de uma kombi amarelada brincando como se um milhão de amanhãs coubessem em seus corações, a segunda imagem, a de um motociclista icônico que morava no meu bairro (ainda há lá uma lagoa enorme) e pilotava o que chamávamos de garele. Ele era negro usava uma peruca e roupas colantes e brilhosas de astros do rock, um chucky berry mineiro. E naquela tarde ele passou com a garele dele e cumprimentou eu e minha irmã. O auge para aquela dupla.Era uma tarde radical de sobreposição de bairros, de crianças ao léu pilotando o caos e de uma bisavó que desaparecia lentamente entre aquele caleidoscópio de imagens e cantigas.


Em O pato, a morte e a tulipa do autor e ilustrador alemão Erlbruck Wolf não tem kombi metaforizando a partida mas tem uma ave que se dá conta da aparição da morte, uma entidade de feições carismáticas e nesse encontro resolve encará-la e acolher sua presença. Uma narrativa gráfica que mira na finitude da vida com uma lucidez e respeito à comunidade de leitores infantis quase sempre levada a esse tema do morrer por metanarrativas espiritualizadas de negação e suas parábolas requentadas de vida além. Aqui nesse conflito metafísico entre pato e morte o rito da personagem fúnebre ganha suavidade, alteridade e franqueza.


O pato envolve a arauta do fim em sua rotina de banho no lago, de sonecas, de empoleirar-se na árvore e a estranheza daquela aparição conquista um outro rumo nessa relação inexorável: a amizade. E como não há trocas, nem garantias nessa comunhão doce e delicada vinga no grafismo e no texto, a radicalidade do morrer com o substrato que resta à senhora que carrega silenciosamente pelas páginas a tulipa, o gesto de carinho traduzido na despedida, a flor posta no torso do pato.


 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Trilogia, de Ariana Harwicz.

Uma trilogia barroca: estilística absurdamente onírica, tabus desrecalcados, vidas catastrofizadas. a radicalidade do trem todo tá além...

 
 
 

Comentários


bottom of page