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O olho mais azul, de Toni Morrison. Companhia das Letras.

  • 30 de jan. de 2024
  • 2 min de leitura

Atualizado: 1 de fev. de 2024



Em O olho mais azul (1970) há a emergência e a sedimentação de uma linguagem lírica que fricciona violência, alteridade, desejo de emancipação em um projeto estético de romance histórico que não se esgota no registro de comportamento de uma época. Vigora ali toda uma sorte de elaboração de passado que desrecalca violência, terror, raiva e desejo pela escrita.


Toni Morrison constrói uma obra-prima e alcança através das vozes narrativas de crianças as dores, as resistências e todos os afetos negativos que forjam a subjetividade da comunidade negra no estado de Ohio nos anos 40. O custo psíquico das narradoras diante do tempo presente e das retrospectivas para dar conta do passado de ancestrais é um calculo impossível mas que palmilhamos ao longo do arco de cada uma das personagens.


Claudia MacTeer, a principal voz narrativa do romance faz de sua memorabília, um álbum polifônico onde não é só o resgaste dos rostos ou da memória da vizinhaça que está em curso, é antes a tentativa de humanizar a sua infância acossada pelo racismo imposto a ela, a irmã e à vizinha Pecola Breedlove. E é pelo gesto da escrita que revém, em força estilística de uma prosa poética de matiz psicanalítica, o turbilhão de percepções e terror daqueles anos da infância e adolescência.


Abuso infantil, alcoolismo, misogonia, conflitos no mundo escolar em uma temporalidade helicoidal de passado e presente, em uma construção de consciências que se confessam sedentas de sublimação. A escrita de si como trunfo para o descentramento do sujeito, a narradora reconhece a colega de escola, Pecola, como um outro, ela existe e ainda que suas feridas e obsessão por olhos azuis seja distinta da sua miríade de desejos e sonhos, escrever sobre ela é uma espécie de reconquista de lutas e pavores silenciados.


A linguagem da narradora repovoa a arquitetura da cidade de Lorain, seus bairros e escola com personagens que não se alienam dos efeitos do racismo, a comunidade negra não é apresentada em uma investida homogênea e com vistas ao decalque representacional de empenho sociológico. Pecola, Claudia e Frieda entre delírio, escrita e sonhos reelaboram rotas e subjetividades para nós, leitoras do agora.


 
 
 

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