O jovem, de Annie Ernaux. Editora Fósforo.
- 31 de jan. de 2024
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Ainda que a crítica venha há muito elencando concisão e uma derivação da escrita confessional como estilemas da linguagem de Ernaux reconheço tb no projeto estético da autora francesa uma herança ensaísta que passa pelo canônico Ensaios de Montaigne mas sobretudo o legado de uma ética escritural às voltas com o íntimo não monumental da vida privada, com os ritos de ser mulher em imaginário patriarcal e misógino materializados no corpo feminino presente em Memórias de uma moça bem comportada de Simone de Beauvoir.
Enquanto em O lugar a autora concentra a potência de sua linguagem fluida em tensionar o mote de seu trabalho ficcional: uma espécie de falibilidade em sublimar linhagens vertidas em costumes familiares e suas marcas de classe, de gênero, seu pertencimento enquanto filha ao macrocosmo de modernização de um mundo que soava estrangeiro aos pais advindos de um microcosmo interiorano com rastro do campo nesse O jovem a pressão das reminiscências atinge uma voltagem senão de pacificação com o turbilhão da memória de infância e adolescência uma espessura de maturidade, regozijo e cinismo brando diante de sentidos e pactos em rearranjo pelas experiências e pela urgência da escrita. É essa urgência que perfura o projeto autoficcional o levando também para um domínio do ensaio eda performance. A fratura do sujeito mulher que ficcionaliza e dilata um si anti-lírico para revisionar ou prolongar efeitos de cisão, de radicalidade e até de uma suposta autossuficiência utópica q flerta com a autorreferencialidade de sua obra.
São os registros de seu relacionamento com um ex aluno 30 anos mais novo que faz o romance ganhar tração de episódios quase epistolares. Pela descoberta da finitude do casamento do aluno, pela frequência dos encontros, pelos prenúncios do fim, a voz narrativa fala da garantia e vacilação dos acontecimentos e sentimentos com um manejo artificioso de passado e futuro q só a conquista extrema da plasticidade e inorganicidade da literatura podem forjar.
Ficcionalizar o tempo, os desejos ainda que se conte sobre o si abrigado no próprio corpo longe de ser um pacto meramente autobiográfico é um exercício estético de distorção do real pq revisiona
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