Não fossem as sílabas do sábado, de Mariana Salomão Carrara. Editora Todavia.
- 31 de jan. de 2024
- 1 min de leitura
Vinga em Não fossem as sílabas do sábado uma espessura traumática, a voz confessional da narradora Ana forja uma possessão de solidão, dor e uma espécie de anomia social diante da morte trágica de seu marido André na manhã que revelaria a gravidez. Uma morte dupla desorbitando a noção de destino, de uma parentalidade em simbiose, o vizinho do décimo andar que despenca em uma queda suicida coloca a esposa Madalena como estrangeira e cuidadora nessa nova família em escombros. Culpa e luto como entes peregrinos se instalam em uma cinética doméstica de digressões, memorabilias, tentativas fracassadas de cartografar os passos que antecederam o evento cataclístico por parte de Ana, à Madalena é entregue como fatura do evento, o interdito sobre o marido Miguel, que paira fantasmático nas especulações de Ana. O romance de Mariana Salomão Carrara ainda que invista em um apelo realista inegociável sobre a morte, o pranto, e o luto traz a reboque, uma imagística quase tátil e sonora, por isso, poética, da maternagem em sua exaustão, em seus cálculos agônicos de futuro, do corpo que se diluí em leite, sono, letargia e medo. A experiência limite do corpo grávido, da subjetividade de uma puérpera, de uma criança que cresce tendo a morte como família, de duas viúvas que esculpem entre danações de um processo judicial e partilhas generosas acossadas pelas ausências, uma amizade, permitem a ascensão de um lirismo embotado que não se presta a catarse, nênia. Toda a linguagem ali tem um fluxo de remetimento a um outro, (relembramentos, queixas, melancolia) muito mais pela urgência da escuta, de uma partilha incessante de si, das dores de se continuar viva.
Comentários