Memórias de Lázaro, de Adonias Filho. Civilização Brasileira.
- 30 de jan. de 2024
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Atualizado: 1 de fev. de 2024

Memórias de Lázaro, publicado em 1952, compõe com Servos da Morte, livro de 1946 e com Corpo Vivo de 1962 a “Trilogia do Cacau” assinada por Adonias Filho.
A irrupção do mal no romance forja uma economia de dissipação da virtude, de desumanização da paisagem social e de suas interações, da experiência com o bestial como condição inexorável para se pensar a alteridade e a construção do tempo pós-apocalítico que acossa os narradores e os personagens do Vale do Ouro. Ante uma linguagem de lastro expressionista que se perfaz sob o signo dos escombros de um mundo arruinado, confessado pelo personagem Alexandre, a atração entre as catástrofes que enredam o romance (assassinato, incesto, iminência de epidemia, mutilação animal) e o mal paradoxalmente como estigma e distinção funcionam como mote narrativo do romance.
Há uma reação pelo mal, os personagens não desvanecem pelo fracasso e pela fatalidade antes trilham um percurso abjeto onde o sentido da regeneração é negado, a única sobrevivência possível não é a do milagre, é a do martírio inarredável, da vingança, da acusação, do crime, da consumação do mal: a cena narrada por Roberto, irmão de Rosália em que a assassina do pai se entrega ao personagem leproso do romance, Gemar Quinto, vislumbrando dizimar toda a população do vale.
Rosália com o mesmo ímpeto de Juliette heroína sadiana que dentre os repertórios de seus deboches envenena todo um hospital da região siciliana onde passava as férias.Os sacrifícios reconhecidos da teatral narrativa sadiana se distinguem da linguagem adonisiana q por mais que invista em hierarquias (do silêncio, do passado) não leva a cabo um projeto de anti-moralidade que deva corroer práticas normativas, o vale parece ser o último refúgio dos desabrigados.
Entre as marcas inclementes de um estado latente de decomposição da família de Alexandre, da família de Rosália, dos infortúnios que fundam e reverberam a experiência comunitária de matiz pós-apocalíptica, as disseminações plásticas de um Vale que assim como a figura bíblica de Lázaro recende a morte e anima o Vale de revinda dos párias, dos excluídos.
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