Frio o bastante para nevar, de Jessica Au. Editora Fósforo.
- 31 de jan. de 2024
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Frio o bastante para nevar de Jessica Au é um romance sobre irrupções advindas da relação mãe e filha, sobre a linguagem que atrofia o tempo presente, aglutina o que chega e resta de passado e os redimensionam em seus efeitos de sondar, captar e borrar a realidade.
Se em Terra de Neve, Kawabata explora os efeitos gradativos que um texto ficcional consegue comportar para evocar certa despressurização do enredo com vistas ao silencioso ganho contínuo de acontecimentos e de sentimentos que povoam o pungente objeto final em Frio o bastante de Jessica Au acontece algo parecido, a dicção meditativa e o fluxo elegíaco de paisagens também se entrecruzam porém com um contraste substancial: o de promover além de um embate (representado em uma viagem turística ao Japão entre uma filha de imigrantes que foi alfabetizada em inglês e sua mãe que fala cantonês ainda que tenha ido morar com a família nesse outro país) entre épocas e territórios distintos, um embate que dilata a tensão entre corpos de mulheres que assumem e traduzem o mundo em suas diferentes corporeidades e linguagens
Uma filha narradora que nos entrega em um fluxo de reminiscências um texto com semblante de diário que parece inicialmente interessado em elaborar ou até mesmo perseguir uma ética de aproximação com a mãe. Esse projeto de conquista de alteridade parece experimentar fraturas e o auge da falibilidade se dá durante a viagem delas para o Japão já que ante a presença monumental dos museus e dos jardins se plasma uma incomunicabilidade quase pacificada por uma materialidade de linguagem rarefeita.
Dos acontecimentos pertencentes a esse espectro da relação quase pacificada destaco os sustos que a narradora experimenta ao longo da narrativa diante do aparecimento da mãe. Um romance que elabora e se detém sobre a promessa de adesão da filha ao corpo, ao passado da mãe. Uma promessa que se cumpre pelas despedidas, talvez pela fotografias que foram feitas durante a viagem.
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