Este é o mar, de Mariana Enriquez. Editora Intrínseca.
- 31 de jan. de 2024
- 2 min de leitura
Atualizado: 1 de fev. de 2024
Uma imagística de shows de rock como culto pagão, todo o dispêndio de devoção tomados como forças mágicas que possibilitam o panteão do rock e suas lendas como Kurt Cobain, Sid Vicious, Jim Morrisson é o mote do romance Este é o mar, de Mariana Enriquez.
A recuperação desses ídolos na narrativa tem um peso mais metafísico do que nostálgico, a cosmogonia dessas lendas levam uma assinatura de entidades fantasmagóricas que evocam as moiras gregas, aqui chamadas de Luminosas e que sua perpetuação simbólica e material depende da idolatria e obsessão das fãs às bandas, mais especificamente ao cantor, escolhido a prioristicamente por essas divindades como peça fundamental do ritual. O cantor da vez é James Evans da banda The Fallen.
Uma narrativa intrincada e linear sobre pactos que lembram histórias de vampiros, um mosaico das crises existenciais da adolescência e uma cambaleante crítica à espetacularização da indústria pop que pasteuriza tudo.
Este é o mar destoa do livro de contos As coisas que perdemos no fogo nem tanto em seu projeto estilístico ainda entrelaçado por uma hiperfocalização de acontecimentos ruidosos que sobram no cotidiano comezinho mas pela elaboração estética da consumação das transgressões e violações protagonizadas pelas artimanhas da narradora Helena, aprendiz de deidade. Esse périplo de maldições conduzido por Helena minora o calibre agônico e investe em um imaginário kitsch e estilizado de tensões.
Um circuito de maldades e de tempo mítico que não criam os impactos narrativos de suspense e de apelos presente no livro de contos, vigora em Este é o mar uma tentativa de captura do submundo encriptado do rock e da juventude que incide mais em um caminho de registro sociológico, de representação ultra alegórica sem o domínio narrativo concentrado de choques e especulações presentes no formidável As coisas que perdemos no fogo.
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