Escute as feras, de Nastassja Martim. Editora 34.
- 31 de jan. de 2024
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No tempo quase mítico dos cadernos de campo da antropóloga e escritora Nastassja Martim, a liturgia das ontologias e das alteridades registradas se extraviam diante do radical acontecimento que rege o romance Escute as feras, o embate traduzido como encontro: a mordida do urso no rosto da pesquisadora.
O choque como cicerone de um périplo sem autocomiseração, a voz narrativa reverbera dores mas há um domínio discursivo para que uma constelação de afetos negativos como a raiva, a ironia e o ressentimento também ganhem guarida em suas confissões. As poucas nesgas de condescência não funcionam como elemento de retração ao pacto vertiginoso e, talvez, inconsciente de absorver o insólito e minar com o absoluto e a previsibilidade dos signos, da paisagem, da cultura de outros povos. O microcosmo da selva é posto em uma órbita aberta à comunidade de leitores.
Aqui o relembramento opera uma escritura outra, refunda e radicaliza a experiência ao ficcionalizar floresta, corpo, língua e urso. É pela ficção que se dissemina uma cosmovisão que chacoalha as epistemologias acadêmicas e, também forja uma saída autoral, sem uma assinatura com a espessura dos discursos médicos, para as dores e cicatrizes da autora.
Dos livros guardados para releitura! Não há mistério para ser decodificado pela miscelânea estililística de escrita etnográfica às voltas com ficção e linguagem poética, persiste como vontade de leitora uma pulsão pelas vidas que acontecem em uma brutalidade sem performances.
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