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Entre as mãos, de Juliana Leite. Editora Record.

  • 31 de jan. de 2024
  • 1 min de leitura

A presença que capta e revela a trama arriscada da personagem Magdalena é estruturada pelo ofício da personagem: a tecelagem, a costura como elemento corpóreo e propulsor da linguagem, como prestidigitadora da realidade.

o acidente como evento que irrompe a necessidade de suturar memórias compõem uma espécie de tecido narrativo polifônico com vistas ao incessante e fragmentado resgate de si e daquilo que permeia o livro: o rastilho da ancestralidade.

familiares, amigos, namorado, alunos, todos se afetam pelo corpo em coma que indicia fuga (seja do companheiro), coragem ( do corpo que treina o relançar da escrita, do movimentar dos dedos), escuta e temor diante do vapor, dos rasgos mnemônicos.

o enfretamento de Magdalena ao abandono do frenético dos dias de trabalho, da vida anterior ao corte, condesado nas imagens seja da queimadura dos dedos, da retirada do útero ou da cena do ônibus em que ela luta por permanecer no caminho da aula que precisa resgatar, se dá por uma economia simbólica de reconquista das letras, da linguagem, do movimento dos músculos, do amparo dos ossos e por uma espécie de coro facilitador ou ainda desatador de catarses, as três tias que cuidam e em um misto de fé e pulsão de vida lutam pelo perpetuar do corpo da sobrinha.

um livro bonito sobre mulheres, queda, sofrimento e transtornos psíquicos, família. não vinga aqui uma ética ou um sintaxe subjetiva sobre a dor do corpo esgarçado, se constata antes olhares difusos e perspectivas sensíveis ora escancaradas ora em dicção de segredo acerca do tempo, nunca docilizado, nunca retilíneo.


 
 
 

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