Dia um, de Tiago Camelo. Companhia das Letras.
- 30 de jan. de 2024
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A rota de uma trabalho de luto em Dia um, de Tiago Camelo é incalculável. Assombro, nostalgia, culpa e um eu esmigalhado diante dos vislumbres de diluição de si, da certeza da dissolução eterna do outro compõem o tempo melancólico mas também dialético que estruturam o romance. Dialético porque mesmo em rota de rasura dos sentidos, o narrador assume diante da valência de memorabílias da depressão do irmão mais velho uma presença de ausculta íntima de seus próprios sintomas e dores para em um espécie de transe racional se enxergar também como sujeito de desejo de vitalidade
"O sol brilhou errado, como num acidente. Desde então, você pensa que todo suicídio é em parte um acidente.".
O ritmo agônico e muitas vezes compassivo dos pais em relação ao filho mais velho antecede a pulsão do narrador em segunda pessoa, o caçula, em fixar e recobrar as lembranças e as galhofas como tônica para um alívio cômico fundanteda relação amorosa entre os irmãos. Pai e mãe são apresentados em um trabalho de rastro sentimental, em suas tentativas colapsadas de transmitir corporeidade ao presente, ao microcosmo cotidiano do filho, mas como elabora Andrew Solomon um dos autores citados por Camelo " Na depressão, tudo que está acontecendo no presente é a antecipação da dor no futuro, e o presente enquanto presente não mais existe”.
Outro ponto antitético dessa jornada melancólica é a presença da esposa do narrador, figura aglutinadora de alteridade e beleza na narrativa. É a partir também dela em uma economia de escuta, de força libidinal que vinga um trânsito, um recalculo de rota.
A imagística do sol brilhando errado se torna um palimpsesto das quedas, de um comezinho absurdado pelos sustos. Jacarepagua, Botafogo e Copacabana aparecem em um inventário topográfico que dá conta de tantas eras e de tantos mundos que como leitora me vi vibrando pelo vasco, tentando alcançar o invólucro complexo da mãe para oferecer um abraço. A literatura como esse lugar de quebra da realidade, como um exercício estético e filosófico da linguagem para investir de diferenças, de desvios o pacto apriorístico da morte é um terreno palmilhado, revolvido e decantado por Camelo
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