Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso. Companhia das Letras.
- 30 de jan. de 2024
- 2 min de leitura
Atualizado: 1 de fev. de 2024

Crônica da casa assassinada se apropria de um anedotário mineiro de assombrações, de santos, de rezas, de sobrenomes guardiões de épocas áureas, de sacrilégios revertidos em pragas em uma textura de granulações expressionistas em uma voltagem que transcende uma mera reprodutibilidade simbólica.
Resta ao João, àquele responsável pelos cadernos do apocalipse, o evangelista exilado, o excerto único e epígrafe inaugural de Crônica da casa assassinada, que ilumina mas não resolve o mistério do sagrado em hesitação, do fracasso de um tão almejado alcance a esse outro guardado, portado no apelo escritural: “Jesus disse: tirai a pedra: Disse-lhe Marta, irmã do defunto: Senhor, ele já cheira mal, porque já está aí há quatro dias. Disse-lhe Jesus: Não te disse eu que, se tu creres, verás a glória de Deus? São João, XI, 39,40”.
Entre o que recende do corpo doente e depois velado de Nina e a dimensão cadavérica que o romance desenvolve ao longo da narrativa, ecoa a epígrafe até então enigmática cujo alumbramento forja uma ironia negativa, já que o corpo pútrido de Nina não ressuscita como o de Lázaro. Frente ao não milagre, Crônica opera em lances de decepção, André e Valdo protagonizando incursões e suspeitas ao corpo que ainda poderia despertar, mas não retorna.O júbilo vivido e experimentado na relação incestuosa de Nina e André se dá pela intrusão de um tempo escasso de espasmos; são notas em apelos de um desejo singularizado pela concretização e pela frustração, desejo reverberado por uma obsessão que insulta morte e realidade.
Uma escritura pela intrusão, pelo eco de mundo primitivo que não se expõe pela disputa, impõe-se invicto e irredutível. Nina institui o fascínio que se propaga pelo íntimo de André, como medida intransponível sobre esse mundo em desconcerto e agitação pela mulher indevassável, e, ultrapassando qualquer premissa humanista de lastro religioso, a sintaxe sacrílega excede a letra do possível e não se esgota na unidade do referente; o desejo de André por Nina vai além do corpo são, da presença altiva, vai além da amante.
(📚farei mais posts sobre essa obra monumental)
Comentários