Cinzas na boca, de Brenda Navarro. Editora Dublinense.
- 30 de jan. de 2024
- 2 min de leitura
Atualizado: 31 de jan. de 2024

Lá onde a violência e o narcotráfico definem o ritmo do cotidiano de famílias aglutinadas em um bairro de militares aposentados e de seus filhos ainda em exercício, se delineam os primeiros lutos e rituais de passagem de Diego e sua irmã mais velha. Ritos e prantos como totens de subjetividades inscritas em um regime de menos valia inegociável.
A infância e início de adolescência que orbitam em torno da partida da mãe do México para Madri é uma cicatriz não suturada em constante convocação mesmo depois da ida de Diego e sua irmã para a Espanha. As disputas milicianas, o ânimo patriarcal dos avós, a surra que a avó dá na narradora depois de um acidente com a cristaleira que desaba em cima de Diego, as músicas do Vampire Weekend como trilha e rastro de uma comunhão entre irmãos compõem a estrutura marcada tanto pela interpolação de flashbacks quanto pela antecipação de eventos radicais antes do acontecimento deles.
Entre essa miscelânea de espacialidades, temporalidades e de dores, a vida dos irmãos na Espanha é drenada diante da xenofobia, do trabalho informal, da dificuldade em se integrarem ao novo e prometido mundo pleno de esperanças do capital. É pela fratura do pertencimento na escola, pelo bullying incessante que chega a notícia do suicídio de Diego, uma espécie de catalisador do niilismo de sua irmã. Niilismo estilizado de uma imigrante prestes a se tornar surda pelas sequelas da surra dada pela avó em sua infância, mesmo a rasura de sentido experimentada pela narradora-personagem não deixa escapar o pequeno ponto de resistência pactuado inconscientemente com o irmão: a música.
Como em Casas vazias a maternidade também é colocada em perspectiva em Cinzas na boca mas aqui o lance agônico é a voz narrativa da filha que tenta se livrar da herança maior de seu país natal, que não é a violência, nem o vínculo com a mãe e sim, a presença do irmão. A falibilidade dessa tentativa se materializa em um vínculo icônico e antropofágico: o irmão que se entranha é a única esperança para não sucumbir ao niilismo, ao estrangeiro, a si.
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