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Casas vazias, de Brenda Navarro. Editora Dublinenses.

  • 30 de jan. de 2024
  • 2 min de leitura

Atualizado: 31 de jan. de 2024

O tempo presente em constante exumação. As vozes que materializam o desaparecimento da criança assumem o peso desse acontecimento, a da mãe que acompanhava o filho no parquinho enquanto trocava mensagens com o amante e o da sequestradora. E é nesse reverberar das impressões, dos vestígios dos dias que as duas personagens não nomeadas palmilham uma vida suspensa, uma espécie de delírio de olhos abertos, um terror advindo pela rasura do futuro ou pelo falibilidade do roubo que não restitui o sonho de família e maternidade desejados pela confeiteira.


A primeira voz narrativa é a da mãe de Daniel. É por ela que se inicia uma espécie de torção no emaranhado de sentidos romantizados acerca da maternidade que ganha uma voltagem de ideação apocalíptica de mundo já com o nascimento e depois com o desaparecimento do filho.

Cosmogonias domésticas são erigidas e apelo dramático/angústia como mote para prolongar o suspense conquistam uma força sombria de aventura radical que nós faz pertencer aquelas comunidades de silêncio e de alaridos. A voz narrativa da mulher que rouba Daniel e o nomeia como Leonel tenta ressignificar seu gesto de extravio como uma assinatura redentora para sua subjetividade às voltas com o latente imaginário da maternidade compulsória. O roubo como fracasso. E os estilhaços desse fracasso não se correspondem com a imagem utópica da maternagem e catalisa para a personagem uma experiência de dor repleta de solidão e paralisia.


Enquanto a mãe d Daniel acossada por uma ética do familismo caotiza as partilhas e condescendências renegando o presente como fonte d luta (a personagem e o marido Fran assumem a parentalidade de Nagore, filha da irmã de Fran assassinada pelo marido na Espanha e reluta em incorporar a performance de mãe adotiva, de resiliência e militância do grupo de mães de crianças desaparecidas), a mãe postiça manifesta sua fé em dias pacificados com a chegada da criança que descobre ser autista. Fé esmigalhada pelo ambiente de violência com o companheiro, pelos desafios inerentes aos cuidados de uma criança


Uma saga sobre a vida subjetiva de mulheres e a tensa performance de feminilidade manifestada em suamaior insígnia, a maternidade.


 
 
 

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