As pequenas chances, de Natalia Timmerman. Editora Todavia.
- 30 de jan. de 2024
- 2 min de leitura
Atualizado: 1 de fev. de 2024

Li As pequenas chances como quem porta algo críptico sobre o universo metafísico, sentimental, profissional de uma mulher às voltas com o adoecimento de seu pai e com uma pulsão épica pela vida que faz de um terreno esmigalhado pela angústia e luto, um romance cheio de riscos e fabulações.
Timmerman agudiza o risco de uma escrita que pactua com o confessional para presentificar em vislumbres mundos passados e até conjurar relances de um futuro, a sua linguagem não passa pela sintaxe de uma pretensa autorreferencialidade interessada em encadear fatos com vistas ao documental. Há ali outra coisa. Uma ideação quase mítica ao universo particular de um pai judeu morto que aglutina, desde a presença dele vivo, um feixe de afetos e sondagens ao mundo da linguagem. A relação do pai com o cinema e o teatro são chaves para adentrar ao microcosmo de uma narradora ansiosa por narrativas e pelo resgate impossível de uma certa ética familiar que entregaria pertencimento e acervo, ainda que em reminiscências, para sua imagística da saudade e dor.
A narradora caotiza a temporalidade desse trabalho de luto e os trunfos desse mosaico estilístico é um texto polifônico onde há espaço para os movimentos, falas de bebê e criança, páginas onde a narradora faz transitar uma voz imaginativa para a irmã Gabi tornando a melancolia, lugar de comunidade, não de solidão. A polifonia está na convocação de parentes e dos rituais judaicos para a travessia da morte do pai, na viagem ao leste europeu, uma espécie de périplo d reconquista de um passado sensorial e sentimental.
Destaco às perspectivas de parentalidade que se constroem ao longo da narrativa, à maternidade focalizada em suas ambivalências, a presença de Eder, marido da personagem-narradora q muitas vezes aparece como cicerone das aventuras fantasmáticas invocadas por Nathalia. Um registro complexo, cheio de nuances e de ternura da vida com filhos em negociação constante de tempo, vida, morte e consolação.
As cenas finais da mensagem destinada à amiga revolvendo um fato não verossimilhante do romance aparece como um furo na cimética dos acontecimentos e só confirma a voltagem fictícia, e q bom, de um texto autofccional.
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