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As maravilhas, de Elena Medel. Editora Todavia.

  • 31 de jan. de 2024
  • 2 min de leitura

Como se um inventário ficcional pudesse coletar de um recorte social e político (do fim da ditadura franquista ao ano de 2018) marcas e rastros espessos, doloridos de um mundo de afetos em penúria, de vidas femininas que se plasmam como forças inarredáveis de trabalho doméstico ou informal, o precariado, e ainda conseguisse em arcos e giros de torções temporais dar corpo complexo à vozes femininas que não se tornam personagens redentoras desse melancólico caleidoscópio de memorabílias familiares e sociais.


A subalternidade e a rasura da emancipação feminina que insistem em se abrigar seja no bairro pobre de Córdoba ou nos amontoados de trabalhos informais em Madri enunciam uma plasticidade que em sua instância realista entrega casas sem luxo, crianças fora da escola e em seu lastro psicológico focalizam uma adesão quase inexorável desses personagens ao mundo do cansaço.


As vozes e percursos de avó e neta nos ciceroneiam em alternância de capítulos que além de criar vínculos de afetos, inclusive negativos, permitem uma espécie de ausculta delicada da qual nosso corpo não sai ileso. María, uma adolescente que quase não saía de casa engravida de um homem do bairro que conheceu no ônibus quando foi substituir seu irmão adoentado em uma entrega das costuras que fazia com a irmã. À María cabe o périplo de ir para Madri, morar com tios e enviar dinheiro, e por reveses e escolhas não estabelecer vínculos com a filha e conhecer as netas. Alicia, neta de María, filha de Carmem, assume o risco de também migrar depois do suicídio do pai.


Dos retratos de enriquecimento da família de Carmem, filha de María: a falta de alteridade de Alícia aos colegas. As imagens não lineares da queda da idealidade familiar, da falta de dinheiro, da troca de escola, forjam um borrão na individualidade de Alicia. Enquanto o território simbólico da avó transmite uma herança anômala (a avó não conhece as netas) de militância feminista, a renúncia de Alicia aos estudos e depois já adulta, distante da família, à pressão q recebe para engravidar longe de ressoar apenas trauma depõe sobre um sistema de sentidos q exerce controle diuturno às subjetividades das mulheres.


 
 
 

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