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As inseparáveis, de Simone de Beauvoir. Editora Nova Fronteira.

  • 31 de jan. de 2024
  • 2 min de leitura

Uma novela como herança (escrito em 1954 e só lançado em 2020), uma escritura que segue a disseminação das teses e das experiências do existencialismo vertido em suas obras: a de tensionar o sujeito racional de sua posição de passividade sobretudo aqui, a espiritual, mas também a do desejo libidinal por uma espécie de reconquista do coletivo (encarnado em As inseparáveis no grupo de amigos) pela crítica ao conservadorismo, uma formulação ou presença sutil de materialismo histórico germina sim no texto.


Depois de reler a autobiografia Memórias de uma moça bem comportada (de 1958) onde Zaza e Simone percorrem uma França atravessada por guerra, por códigos culturais misóginos e elitistas, por escola às voltas com missais e toda uma pedagogia católica retroalimentada por culpa e lógica de pertencimento pelo matrimônio, as personagens Sylvie e Andrée de As inseparáveis, com forte espessura autoficional, retornam ao imaginário de ostentação por parte da família de Andrée, de contenção de gastos, ressentimento de classe pela família de Sylvie, retornam às tentativas de compensação e respostas ao esvaziamento de sentidos de suas interioridades em uma espécie de via crucis intelectual, laica e cristã às amizades, ao amor, ao mundo.


A educação como força motriz da inquietação de Sylvie só ganha permissão diante da perda de prestígio monetário e simbólico da família durante a guerra. Educação como distinção. Não é à toa que as duas amigas presentificam um diálogo fantasmático com Lenu e Lila.


Enquanto a via crucis de Andrée resvala na promessa de exílio pela mãe, pela não autorização de seu casamento, e atinge seu clímax em um acontecimento discursivo, vertiginoso, de matiz delirante (com o pai de Pascal, que também se opunha à união) e que precede sua internação e morte por uma doença parente da meningite, o arco dramático de Sylvie, ao tentar recapitular a vida da amiga em um exercício de expurgo sentimental, de críticas à noção cristã de familismo, faz do relembramento um mote ao incessante da vida que é a saudade.


 
 
 

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