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As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez. Editora Intrínseca.

  • 31 de jan de 2024
  • 2 min de leitura

Atualizado: 1 de fev de 2024

A penumbra como recurso narratológico para prolongar um tempo de dor (Os anos intoxicados da ditadura militar argentina) que se refaz pelo trauma, pelas marcas de desigualdade social encarnadas nos espaços periféricos e até por uma espécie de delírio abrigado por uma tessitura de terror e sobrenaturalidade que nos impõe um estado de vigília alucinatória e angústia diante de 12 contos sobre uma Buenos Aires e uma Argentina enigmática, gótica e violenta.


Se a história de uma gangue de crianças mutantes deflagra a herança do aparato ainda repressivo da polícia, as crianças em riscos extremados como sequestro, rituais dramáticos de espiritualidades parecem nos entregar algo indecifrável sobre esse mundo urbano acessado por corpos em drogadição, corpos brutalizados por alucinações e acossados por superstições. Violências urbanas entoam ali uma liturgia ininteligível daquele microcosmo real e surreal. A imagística macabra das casas, ruas e moradores que constituem as favelas ou estradas representadas nos contos ativam não uma naturalização da barbárie mas um olhar cooptado pela economia libidinal de terror, de crítica social e de beleza agônica emanada dos caos citadino insólito com fortes mesclas de ambientação rural.


No conto As coisas que perdemos no fogo, o livro atiça um rastilho de insurgências de costumes, de uma rebelião dramática com coro feminista aos códigos de violência misógina que decalcaram o pesadelo ao ordinário dos dias. Um constraste emerge das caçadas dos homens que violavam através de queimaduras rostos e corpos femininos: a conquista do rapto do fogo pela comunidade de mulheres. Uma apropriação excêntrica que subverte o domínio falocêntrico. Agora mulheres se queimam e fazem reverberar como se fossem membros de uma seita, seus feitiços pré- discursivos inscritos em suas cicatrizes. Corpos de mulheres feridos mas sem medo de serem capturados.


Só vi histórias assim de mutantes, jardins assombrados, superstições envolvendo vizinhos e vozes de fantasmas na novelinha Vamp. Essas ficções de Mariana Enriquez movem o gótico para o distópico, o distópico para o realismo que se perfura pelo insólito.


 
 
 

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