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A vida mentirosa dos adultos, de Elena Ferrante. Editora Intrínseca.

  • 31 de jan. de 2024
  • 2 min de leitura

a cosmovisão de Ferrante em perseguição às arqueologias e linhagens libidinais (aquilo que mobiliza afetos, sintomas, lutos) e familiares tensiona imagem e movimento daquilo posto como velado: a pobreza como herança, o silêncio como garantia de resguardo, o casamento como pacto conciliatório.

a narrativa magnética que forja personagens complexos e sulca nossa subjetividade em atração/escuta e fascínio a um universo distinto do que estávamos acostumados na Tetralogia e nos outros romances (reverberações da maternidade; trabalhadores pobres em dispêndio atávico de dores, ressentimento, loucura e revolta; crianças em constante desamparo parental) sobrepõe conflitos catalisados pela voz narrativa de Giovanna, filha dos professores Andrea e Nella, ambos de famílias humildes. aqui também está plasmada a imagem das pessoas que ascendem pela educação, a distinção do bairro classe média como insígnia de algo mais metafísico, o pensamento, o estudo e a reflexão como garantia de pertencimento a outra ecologia social e sentimental. porém os sintomas que se propagam aqui não são disputas territoriais e simbólicas com mães, família mafiosa, ou turbilhão de afetos políticos como força motriz de mobilização de alteridades. a figuração da adolescência e do divórcio como eventos abstratos porém corpóreos se amplificam diante da descoberta da tia paterna Vittoria que deflagra para a garota não só a presença sentimental e geográfica da parte baixa de Nápoles encarnada pelo dialeto como o fantasma daquilo renegado pelo pai; os costumes, as feições généticas, os tiques sociais e a rudeza daquele microcosmo precarizado

como se a vida mentirosa dos adultos fosse um duplo torto de a história do olho. infância e adolescência escorraçando a noção arcaica de familismo & celebrando um niilismo encorajador de futuro se é que isso seja possível.


 
 
 

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