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A vergonha, de Annie Ernaux. Editora Fósforo.

  • 31 de jan. de 2024
  • 1 min de leitura

persiste em A vergonha um périplo narrativo regulado por afetos dissonantes que faz da memória, um material inacabado, sempre aberto ao exame de si que teme mas incorpora a vergonha como ente fundante desse processo radical de ida ao incessante do passado.


O gatilho dessa submersão melancólica que fratura o presente é a cena do dia em que seu pai tenta matar sua mãe. Ainda que a voz narrativa cinquenta anos depois se invista e se impregne de um trabalho historiográfico para recompor o ano de 1952 e um possível reencontro com a subjetividade daquela menina filha de comerciantes, estudante de uma escola religiosa particular da Normandia assistimos ao fracasso dessa façanha.


Mas o que deriva desse reconhecimento falhado? Um acesso aos ruídos, às reentrâncias de uma vida doméstica e escolar teleguiados ora por uma urgência dos pais pela distinção e ingresso ao macrocosmo burguês, ora pelo silenciamento de seus temores de classe, de gênero da pré adolescência e adolescência.


Ao dizer que não existe memória verdadeira sobre si mesma a autora depõe sobre um projeto literário às voltas com os dilemas de representação do eu que não se encerra em quaisquer promessas de um pacto utópico. É o espaço dado ao vestígio de vergonha como precipitador de memórias que catalisa uma narrativa de desencontros com o passado.


 
 
 

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