A irmã menor, de Mariana Enriquez. Relicário Edições.
- 30 de jan. de 2024
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Lá onde o dito sobre o tesouro não pretende ser uma cartografia absoluta, lá onde o mistério não se curva ao passo da biografia sem ambivalências está o retrato de Silvana Ocampo com assinatura de Mariana Enriquez. Um retrato alinhavado em um torvelinho de testemunhos, leituras e presença fantasmática de uma escritora que fez de seu ofício uma arte embalsamadora de realidades excêntricas. Como se as duas dicções de Ocampo e Enriquez forjassem e povoassem uma outra historiografia possível, mais espessa e polifônica para a autora de “A fúria” (1959), publicado em 2019 e “As convidadas” (1961), em 2022 livros de contos que saíram no Brasil pela Companhia das Letras.
Em A irmã menor há uma espécie de conversão de biografia à uma expografia e é desse dispêndio de reconstruir cenas, gestos, silêncios, reverberações que vigora no trabalho de Enriquez um deslimite de resgate oficial, se entrecruzam um fluxo de consciência fabulatória diante de documentos, entrevistas e um meticuloso registro do imaginário que enredava e acossava Silvina Ocampo. É pelas marcas de uma linguagem em eterno espanto e pelos ecos da força estilística e enigmática da autora, seja como colaboradora da revista criada pela irmã Victoria, como esteta de uma obra que elege o excesso de realidade como mote que compõe seus personagens e temas, como figura determinante na trajetória de Silvia Molloy ou de Alejandra Pizarniki como esposa de Bioy Casares e amiga íntima de Borges que o enquadramento de Enriquez excede a mirada biográfica.
Enriquez capta e dissemina em seu ânimo de linguagem afeito ao críptico as cosmovisões de Silvina Ocampo, das miúdas e excêntricas sobre as baratas, das agônicas acerca da família e das eletrizantes, cheias de suturas quando o material é corpóreo e ficcional, a sua literatura. Um retrato com efeito de caleidoscópio, uma miríade de Silvinas Ocampo e uma outra Mariana Enriquez, um álbum de família para leitores das duas autoras que se radicalizam aqui em uma irmandade agora também eterna.
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