A consulta, de Katharina Volckmer. Editora Fósforo.
- 31 de jan. de 2024
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Toda uma dicção acossada por chistes nervosos (o empilhamento e obsessão oníricos e eróticos por Hitler), um trabalho engenhoso da linguagem ficcional em entregar alívio cômico diante de uma miríade de sintomas da personagem à uma pátria que nunca encampou integralmente o projeto de desnazificação, ao universo de parentalidade e suas matrizes de gênero responsável por uma infância avessa a noção de escolhas e respeito. Observado agora com certa lonjura, A consulta, parece a um só tempo delicado e performático.
Um livro de cismas e catarse de uma vida em mutação mas também uma narrativa de memórias de um povo atravessado por guerras, nazismo, de um tempo marcado por um luto mal elaborado, cheio de suspensões, retoques e falseamentos. É desde esse tempo de dor e de crises que o sujeito universal homem e sua cultura plasmada no imaginário (o patriarcado) é posto em sucessivos eletrochoques discursivos.
A consulta tem em sua cinética verborrágica e em sua intermitente missão iconoclasta, uma feição de stand up, mas não é. Parece sessão de análise, quando a personagem expatriada, agora moradora de Londres, elege seu cirurgião plástico judeu, o Dr Seligman, para fazer supitar toda a sua verdade, ainda que estilizada e fragmentada em um jorro testemunhal cujos cortes tornam a figura silenciosa (não há fala discursiva assinada pelo Dr) uma presença robusta de sensibilidade e de materialidade. É inegável a transferência, o palmilhar dos assombros, a confissão que integra a clínica, é consulta sim mas também é outra coisa. Parece análise, mas também não é.
É pela ânsia de mutação de si e do tempo já calcinado (que na narrativa é um outro espectral, os mortos e seu futuro arruinado) que a personagem parece reivindicar uma versão totêmica de si como a figura histórica de joana d'arc que se veste de guerreiro ou a personagem idosa de Hilda Hilst que confecciona sua própria máscara de porca para espantar as visitas. Entre transferências, trânsitos espaciais (Alemanha e Reino Unido em um duplo de luz e sombra) a voz narrativa zombeteira e melancólica assume seu luto pelo irmão natimorto, rechaça a binariedade de gênero sobretudo a performance de feminilidade a que foi exposta e socializada na infância. Vejo todo o périplo convulsionado de fala e de desejo pela cirurgia de transgenitalização como um gesto radical, uma espécie de performance derrisória e sentimental que mescla camadas de revolta, de inadequação. Como se a única mutação que restasse fosse essa da materialidade genital. Um romance de deformação histórica já que o peso e o luto de ser alemã é inexorável. A mulher alemã que agora terá um 'pau judeu'. Resta perguntas, sempre. Uma em especial: todo o material ficcional reverbera em alteridade radical e a voz dessas memórias ressoa como a de um homem trans ou de uma mulher?
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