A cachorra, Pilar Quintana. Editora Intrínseca.
- 31 de jan. de 2024
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Da mesma linhagem de textos ficcionais que escarafuncham e se apropriam de signos renegados à figuração da maternidade como Rostos na multidão de Valéria Luiselli, A filha única de Guadalupe Nettel, Casas vazias de Brenda Navarro, As maravilhas de Elena Medel, a linguagem de Pilar Quintana em A cachorra se concentra em aglutinar experiências de dor e ressentimento que orbitam em torno do corpo feminino como gravidez, maternagem, velhice. Nesses vilarejos do pacífico colombiano, as dinâmicas de culpa, de distinção e de trabalho ganham dimensões imagéticas agônicas que destoam da linguagem límpida do texto.
Damaris é a personagem negra e gorda que abriga e catalisa o turbilhão e a intermitente devassa sentimental oriundas de não conseguir engravidar, das reminiscências de uma infância enredadas na morte do amigo, das punições pelo acidente que recaem nela.
Em ondas de disseminação metafóricas que exploram a presentificação da imaginada filha na adoção de uma cachorra que leva o nome que daria a criança, Chirli, o romance mira na economia de afetos (em um trânsito entre ternura, perturbação, cuidados e raiva) para entregar uma espécie de ensaio filosófico de que a consumação de um desejo não é um lugar pacificado de tumultos, dores e melancolias.
Ainda que imagens de Damaris carregando Chirli nanopequenininha no sutiã plasmem sentidos de docilidade à maternagem, da imersão instintiva ao cuidados dos outros, seus estouros de raiva e o derradeiro gesto de crueldade fazem da escrita de A cachorra um projeto estético e político que extrapola o afã representacional, vigora ali uma linguagem às voltas com historicismos, metanarrativas, interessada em processos íntimos (de todos personagens, mas sobretudo de Damaris e Ximena) que quebrem a noção de um sujeito mulher indivisível e inquebrantável.
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