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A cabeça do pai, de Denise Sant’Anna. Editora Todavia.

  • 30 de jan. de 2024
  • 1 min de leitura

Atualizado: 1 de fev. de 2024


Com um estilo de prosa cristalina que revela tanto o assombro do olhar de uma filha à velhice e ao adoecimento dos pais (o avc do pai e o alzheimer da mãe) quanto a dilatação de uma ácida autopercepção sobre o seu próprio corpo e a indústria da saúde e seus códigos perversos de sobrevida, Cabeça do pai, de Denise Sant'Anna é uma obra que reatualiza o gênero romance ao aglutinar a estrutura e ritmo do ensaio e a dicção lírica do memorialismo ao universo vertiginoso da imaginação tão fundante da engrenagem do romance.


O arco da narradora Paula, casada e mãe de dois filhos verga diante das variadas reentrâncias narrativas e é por essa torção de percepções, de relatos do passado, contados ao pai acamado, sobre amigos e conhecidos, que esses casos ganham uma concretude discursiva de vidas em suas alteridades e que o romance dá conta de uma fatura bem maior que a representação do comezinho, ainda que excruciante, de uma filha às voltas com as doenças. Cabeça do pai, entrega um giro reflexivo de empenho histórico e político sobre a ideia e a falência do familismo, a finitude do corpo, o viver em comunidade e a ética inexorável do capitalismo diante do morrer.


Paula é uma mulher com suas dores e responsabilidades mas também é um lembrete inquietante e agônico para nós, filhos, da morte e do turbilhão de temporalidades e sentimentos que ela deflagra e desrecalca.


 
 
 

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